VELLKER: O TEATRINHO PORNÔ
Terminou de forma melancólica a votação do senado (não foi erro meu, Senado sério sim é com letra maiúscula) sobre a CPMF em seu duelo com a presidência da República (também Presidência séria é com letra maiúscula) onde o grande derrotado foi o povo brasileiro. Os dois se balearam mutuamente, pensando que usavam balas de festim, conforme haviam combinado.
Depois da votação, consternados, o presidente Lula e o senador Arthur Virgilio, com cara de turistas perdidos num tiroteio no Rio de Janeiro, se perguntavam o que tinha dado errado. Não podendo dizer isso publicamente, desandou Lula a dizer que quem votou contra a CPMF é rico que nunca usou o SUS, do sistema público de saúde. Isso todos já sabiam e o sabia o próprio Lula, que passou os últimos meses adulando esses mesmos políticos ricos como ele diz, com promessas de todo tipo, para conseguir seus votos. Cargos, emendas orçamentárias, tudo era prometido, até que o resultado da votação deixou todos perplexos.
Do outro lado, o senador Arthur Virgilio, com um ar de absoluto cansaço no rosto, nada tinha de alegre. Com o ânimo semelhante ao de um capitão que desastradamente dispara os canhões contra a proa do seu próprio navio, ainda se dava ao luxo de fazer discursos do tipo “comigo ninguém pode”, enquanto que, em conversas reservadas com seus amigos de partido, começava a ver a água entrando navio adentro, ou seja, contabilizando os prejuízos futuros. Motivo do cansaço: irritados com a derrota da prorrogação da CPMF, os membros da equipe econômica já avisavam aos parlamentares do congresso nacional (Congresso Nacional sério é que se escreve com letras maiúsculas) que boa parte do prejuízo iria sair das emendas orçamentárias dos próprios políticos.
Todos sabem que é jogo rotineiro no congresso nacional que o político Zé da Silva consiga milhares de reais em emendas no orçamento da União para a Sociedade Filantrópica Zé da Silva Jr., supostamente fundada para ajudar crianças carentes, mas que ajuda a própria família do político Zé da Silva. Sem dúvida as crianças de sua família não ficam carentes. Depois é normal que o mesmo político Zé da Silva consiga mais dinheiro com mais emendas para asfaltar um trecho de rodovia na sua cidade, para depois dizer que só por causa dele é que o asfalto está alí e assim manter seu curral eleitoral. E milhares de emendas são apresentadas assim todos os anos, para as mais diversas finalidades. A tão falada (pessimamente, é claro) Mônica Veloso que o diga.
Passado o recado aos parlamentares, todos correram para cima dos que votaram contra e do próprio senador Arthur Virgílio, que mal conseguiu falar algumas palavras de ordem aos agora não tão amigos, que em enxames lhe faziam a pergunta: E agora, quem vai pagar nosso prejuízo?
A votação da CPMF, tinha, afinal, todos os elementos de roteiro de teatrinho pornô, comum em becos sem saída nas grandes cidades. Era para fazer de conta que a oposição era para valer, mas só fazer de conta. Sabe-se lá porquê, deu tudo errado e votaram contra a CPMF mesmo. E agora? Com 40 bilhões de reais a menos, quem é que vai pagar pelas emendas do orçamento, que sumiram de repente? Mas não era só para fazer de conta a briga por esse tempo todo? Não era só para os brigões dizerem que haviam lutado até o fim contra o governo, enquanto se retiravam para o conforto dos seus gabinetes redigindo mais emendas, tudo isso representando mais dinheiro?
O presidente Lula, com a cara de quem acena para o ônibus que vem chegando e vê o motorista passar rindo e ainda esguichar água da poça de lama na sua frente, imediatamente tratou de fazer discurso após discurso, chamando de patifes desalmados os mesmos políticos que cortejara esse tempo todo. Os mesmos políticos que ele chamara textualmente de “300 picaretas” nos tempos em que foi deputado e que subitamente tinham virado salvadores da pátria e grandes amigos. Agora tocava ele a chamá-los dos piores nomes, ao mesmo tempo em que desmentia o ministro Guido Mantega, que falava na recriação da CPMF com outro nome. Desmentia por conveniência, porque entre cortes de planos de assistência ao cidadão comum, que vão desde a segurança até a saúde, já em estado de coma, os estudos vão em frente. Prova disso é o pedido do governador do Rio de Janeiro, ontem, de 12.000 soldados das Forças Armadas para ajudar a combater a criminalidade e a violência no Rio de Janeiro. E porquê isso? Feitas as contas nesses dias, contando hoje com policiais mal pagos, de farda rasgada e viaturas com portas amarradas com arame, ele já viu que até isso ele vai ter que espremer mais ainda. Soldados a pé, de sandálias havaianas e estilingue na mão não serão nenhuma surpresa.
Quanto à Saúde fica o ônus para os governos estaduais, coisa que Lula já falou para os governadores do PSDB, partido do subitamente arrependido senador Arthur Virgílio. Aécio Neves e José Serra, com pretensões a concorrer à presidência do Brasil em 2010, tentam agora acertar as contas para que no futuro não haja uma maciça campanha presidencial em que os petistas possam dizer em que calamidade está a situação nos estados deles e ainda por cima poderem apontar o dedo acusador para os amigos do senador Arthur Virgílio dizendo que foram eles que votaram contra a CPMF. Os culpados são eles. É neles que vocês vão votar?
Mas fica a constatação de que tanto Lula quanto os que votaram contra ou a favor, estrelaram uma peça de mal gosto nesse verdadeiro teatrinho pornô que se tornou o centro do poder político no Brasil. Com as menções a cortes substanciais em áreas que já atendem mal a população, com os privilégios pessoais dos políticos mantidos, apesar dos prejuízos do momento, com a idéia de esperarem a poeira baixar para começarem as articulações para a volta da CPMF com um novo nome de “imposto patriótico” ou coisa parecida, vê-se que o grande vencido nessa votação foi o cidadão comum, que só quer segurança, educação, saúde e trabalho para si e para sua família. Esse sim foi o grande vencido nessa peça de mal gosto, encenada por esse poder político apodrecido que é a infelicidade da nossa nação.
O cidadão brasileiro não foi só vencido. Foi também vendido.
Vellker é o colaborador que trata sobre política no Administrando.




