VELLKER: AQUI ESTÁ O MEU CARTÃO
Tem sido por esses dias, além de decepcionante para o povo brasileiro, mais um motivo de piadas para jornais estrangeiros o desfalque ou estelionato, como queiram os leitores, aplicados pelos ministros em suas viagens e gastos pessoais, com o uso de cartões corporativos do governo federal, o que lhes dá vantagens amplas e irrestritas em seus gastos.
Claro, desfalque ou estelionato seria o nome dado por um governo sério. Aqui no Brasil decidiu-se dar o nome de cartão corporativo ao delito. Assim fica tudo dentro da legalidade, enquanto juristas do governo podem assim brincar de trabalhar, apresentando denúncias que nunca darão em nada e uma certa comissão de ética também brinca de defendê-la com perguntas que jamais serão respondidas.
E os jornalistas se aglomeram em volta dos ministros que dão as explicações de sempre: são viagens de trabalho, as compras em lojas de aerportos são alguma coisa relativa ao ministério que ocupam e tudo bem. O que não se entende é que tenham um gabinete em Brasília já que viajam tanto. Estariam melhor na função de pilotos de linhas aéreas. Assim viajariam o tanto que gostam, sendo devidamente pagos por isto, ao invés de o contribuinte brasileiro arcar com viagens inúteis. Fora as notícias e denúncias envolvendo a ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, com os gastos de 171 mil reais, que vão desde passagens até aluguel de carros e compras de presentes em mini-shoppings de aeroportos, aparece também o ministro da Pesca, Altemir Gregolin, que gastou 22 mil reais, segundo ele, cumprindo uma agenda oficial.
Entende-se que duplas sertanejas cobrem valor equivalente para uma apresentação ao público, que quer pagar para vê-los e ouvi-los. O que fica difícil de entender é que o ministro gaste tudo isso para cumprir uma agenda oficial em Foz do Iguaçú, onde a população não o viu nem o ouviu e mesmo assim teve debitada em seus impostos a quantia de 22 mil reais pelo ministro pescador, senão de peixes, ao menos de gastos.
Uma viagem de avião de Brasília até Curitiba sai por 598 reais, ida e volta, visto no site da Gol. De Curitiba até Foz do Iguaçú por certo o ministro contaria com algum carro oficial da prefeitura local, como cortesia digamos, até a cidade de Foz, onde ocorreria o evento. No entanto, só em hospedagens foram gastos 15 mil reais. Fica difícil dar outro nome a esses gastos a não ser desfalque público, mas o governo preferiu dar-lhe o suave nome de “cartão corporativo”. Pelo visto a pesca continuará boa para o ministro por um bom tempo.
Já na outra ponta, com gastos maiores ainda, a ministra da Igualdade Racial encontra-se numa posição de lógica incontestável. Ela é ministra da Igualdade Racial, não ministra da Igualdade Econômica, onde aí sim valeriam os protestos em massa da população brasileira. Ela é ministra de uma pasta que diz que todos são iguais não importa a cor que tenham na pele. Ela não é ministra de uma pasta que diga que todos são iguais não importa o quanto tenham na carteira. Sendo assim a ministra está mesmo coberta de razão. Criaram o cartão corporativo, disseram que que pode gastar à vontade que a conta é do povo, que ela deve, ao menos supostamente, defender e integrar, mesmo que para isso ela ajude a concentrar a renda e aumentar as desigualdades no campo econômico.
De uma forma interessante ela cumpre sua função, pois não importando a cor do assalariado brasileiro, ele deverá sem distinção de raça contribuir com sua parte no imposto de renda para financiar os vôos da ministra. Sem dúvida, no campo da integração e igualdade racial, a ministra conseguiu uma forma de integrar as raças que faz escola até mesmo para outros povos. Unidos pagaremos as viagens da ministra, pronto.
Essas viagens e gastos e o treatro jurídico armado em volta disso e mais a proximidade do Carnaval, lembra a estória da mocinha, que seduzida por algum galã, meses depois aparece com um filho nos braços e o dá ao sujeito assustado, dizendo “Toma a responsabilidade para você que o filho é teu”.
Aqui, de forma semelhante, depois de seduzidos pelos cartões corporativos, aparecem os ministros com suas gastanças e olhando bem para o povo brasileiro, dizem de uma só vez: “Toma a conta para você que o cartão é meu”.
Vellker é o colaborador que trata sobre política no Administrando.




