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SOBRE O FUNCIONALISMO PÚBLICO E A PAIXÃO PELO QUE SE FAZ

Muita gente tem raiva do funcionalismo público brasileiro. Não é por menos. Enfrente uma fila quilométrica na porta do INSS e passe cinco ou seis horas esperando para chegar no atendente apenas para ele te dizer:

“- Sua consulta fica para daqui a três meses.”

e então você vai dizer a mesma coisa. Infelizmente é uma realidade pela qual passa nosso Brasil e não se pode fazer muito para fugir disso. Culpa dos políticos? Também, pois uma boa parte da culpa pertence à própria população. Não a parte afetada, a pobre, mas as classes dominantes. Confirmo isso baseado num relato que ouvi no rádio. Um repórter perguntou sobre a expectativa de aprovação para um candidato a concurso público que acabara de fazer uma prova. Ele respondeu dizendo que era um investimento na sua vida fazer um concurso para ter um emprego de alto salário e estabilidade, já que a situação de empregos não está boa. Ele esqueceu de mencionar que a carga horária também era uma das vantagens, pois ele concorrera a uma vaga no poder judiciário, nossa tão morosa e soberba instituição que cuida da justiça (se é que ela ainda existe nesse país).

Concordo com ele no sentido de que estabelecer-se num emprego pode ser importante em se tratando de Brasil. Contudo, é fato que são pessoas como ele que apodrecem as instituições públicas. Indivíduos sem a mínima intenção de ajudar no desenvolvimento do Brasil, sendo seu único interesse ganhar dinheiro farto, obter privilégios e trabalhar pouco, mesmo que toda pujança saia do bolso do contribuinte. Enquanto o país continuar contratando para a vida toda e sem obrigação de cumprimento de metas filhos de juizes, políticos ou gente abastada que só fazem estudar até os 26 anos para fazer concurso público e colaborar para o engessamento do Estado, nunca sairemos do buraco.

Isso vai contra um ótimo artigo publicado no site RH.com.br, do palestrante e autor Dalmir Sant Anna. Nele é tratada a questão da paixão pelo que se exerce no trabalho. Segundo o autor, o apaixonado pelo que faz “encontra-se relacionado com felicidade e equilíbrio, pois ultrapassa o limite da motivação por estar diretamente ligado com as emoções do coração e o constante desejo de aperfeiçoamento”. Ou seja, aquele que realmente gosta do que faz tenta sempre fazer melhor, ou, no mínimo, atingir o patamar exigido.

Quando se trata de funcionalismo público nem sempre é assim. Aliás, quase nunca é assim. Os funcionários apaixonados são uma minoria, enquanto os desapaixonados, quando não odiosos, do que fazem contaminam praticamente tudo com sua morosidade e petulância. Acham que são melhores que qualquer outro por possuirem um adesivo do poder judiciário grudado no pára-brisa do carro ou por pensarem que são semi-deuses porque são médicos em hospitais públicos e acreditam que têm o poder de dar ou tirar a vida dos pacientes. Todos esses fizeram e ainda fazem concursos públicos exclusivamente pelo dinheiro, e que se dane a população. Uma única vez na minha vida vi um funcionário público dizer que fazia o que fazia com tanto empenho porque acreditava que aquilo era dever dele como empregado do Estado e porque aquilo beneficiaria a população.

Talvez os ratos e sanguessugas que se banham com os recursos do Estado e nada fazem em troca se proliferem e continuem a destruir a máquina pública aos poucos, como é de costume e praticamente já faz parte da cultura brasileira, mas fica aqui registrada a minha indignação.

Desculpem pelo desabafo.

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