VELLKER: MEU BOM AMIGO
Um incidente político, apesar de circunscrito à cidade de São Paulo, é bem ilustrativo do que podemos chamar de senso se amizade e lealdade entre políticos. Acontece em São Paulo, mas, estendendo a todas as camadas da classe política Brasil afora, o exemplo mostra bem o que os políticos brasileiros, em sua esmagadora maioria, entendem como amizade.
Gilberto Kassab, atual prefeito de São Paulo pelo partido DEM e candidato a reeleição, vê sua candidatura naufragar a poucos meses do dia das eleições. Marta Suplicy do PT e Geraldo Alckmin do PSDB estão empatados em 32% das intenções de voto. Kassab vê sua candidatura com magros 11% nadando cada vez mais longe da praia.
Pouco antes de os candidatos começarem de fato a disputa, José Serra, atual governador de São Paulo, aparecia em todos os eventos ao lado de Kassab, que gastava tempo considerável na tevê falando de obras e mais obras, seguido por uma legião de figurantes felizes. Ao mesmo tempo, Serra dava todas as atenções ao ex-governador e hoje candidato Geraldo Alckmin. Com a entrada de Marta Suplicy na disputa, polarizando as intenções de voto, Serra viu que seu amigo Kassab não rendia mais nada e sem maiores cerimônias deixou de aparecer do lado dele.
Constrangido, o prefeito ainda tentou dizer aos jornalistas que era apenas um problema de agendas carregadas de compromissos de um e de outro que não coincidiam. Interessante é que antes das primeiras pesquisas de intenção de votos, as agendas batiam muito bem para todos se encontrarem e se abraçarem em público em palanques e inaugurações do prefeito, mas depois que as pesquisas mostraram Kassab bem atrás de seus concorrentes, a agenda do governador Serra agora só tem horários que coincidem com as do candidato Alckmin.
Ao mesmo tempo, surge na imprensa paulista a denúncia de que Kassab mandou um e-mail aos sub-prefeitos paulistanos exigindo “ação” para tentar reverter a situação. Como o e-mail já foi informado aos leitores pela “Folha de São Paulo” e pode resultar num pedido de cassação da candidatura de Kassab, todos os supostos destinatários já vieram a público dizer que seus assessores é que lêem suas mensagens pessoais, não eles. Numa época em que a privacidade de mensagens eletrônicas é vital e em certos casos leva um sujeito preso, vem os sub-prefeitos dizerem agora que deixam os outros lerem as mensagens deles. Nessas horas, os repórteres devem pensar no velho chavão do “me engana que eu gosto“.
Mas, vendo a ação e o comportamento de todos os envolvidos, os antigos abraços em palanques, as solenidades de inaugurações de obras supérfluas frente a toda a imprensa e câmeras de tevê e agora a verdadeira segregação que impuseram ao antigo amigo, já não mais tão amigo, visto que para eles tem tanta utilidade quanto um cheque sem fundos, mais uma vez se vê a noção que os políticos brasileiros tem do que seja amizade e companheirismo em relação aos colegas, se é que podemos chamar assim quem está nesse meio.
Vellker é o colaborador que trata sobre política no Administrando.




