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VELLKER: O AMIGO DA ONÇA

Na década de 50, o cartunista pernambucano Péricles imortalizou em revistas do Brasil sua criação de um personagem memorável, chamado de Amigo da Onça. Nas mais variadas situações, ele aparecia dando sua opinião ou agindo em algum caso, geralmente da forma mais desfavorável possível ao seu interlocutor, como por exemplo passar o telefone para algum amigo de farra tarde da noite num bar, sabendo que o sujeito já havia avisado a esposa de que estava fazendo hora extra. E ante o olhar atônito do amigo, ainda dizia solicito que só tinha ligado para a esposa do infeliz para que ela se tranqulizasse quanto à hora do retorno. Por isso, era chamado de amigo da onça. Entre algum amigo e a onça, representada pela escabrosa situação, ele, se não ajudava a onça, ao menos deixava a porta aberta para ela.

Não foi outra a atitude do presidente Lula, que como verdadeiro amigo da onça acusou o MST de estar totalmente errado no caso da morte dos 4 seguranças em recente conflito numa fazenda de São Joaquim do Monte, em Pernambuco. Tal qual o personagem amigo da onça, Lula, em brados, acusou o MST de ter exorbitado, de estar errado, de o caso estar mal contado e tudo o mais a que tinha direito.

Seria cômico se fosse uma caricatura, mas é trágico porque é a verdade. Lula, que sempre deixou o MST protagonizar invasões que feriram claramente todas as leis, enquanto que nos anos passados até mesmo punha o boné do movimento, hoje se vê numa situação incômoda e procura mostrar para a opinião pública que na verdade não está com o movimento. Mas em grande parte sua tentativa tardia de se desvencilhar do movimento é apenas uma manobra para evitar que os respingos de tinta, no caso, de sangue, manchem a candidatura de Dilma Roussef  à presidência, primeiramente ensaiada de leve para a opinião pública e depois fortalecida com a ministra sendo apresentada como mãe do PAC, o famoso Programa de Aceleração do Crescimento, que levou um primeiro murro da crise financeira que começou no ano passado e agora se vê às voltas com a última encrenca protagonizada pelos militantes do MST.

Nada há de errado num movimento social. O que há de errado com o MST é que, iniciado na década de 80 com justas reivindicações sociais, com o passar do tempo suas lideranças se acostumaram e muito mal a serem primeiro incondicionalmente defendidas pelo PT na oposição e depois pelo PT no poder. Assim, esse movimento perdeu seu rumo e passou a agir como um bando de arruaceiros. Perderam todos com isso, a sociedade civil, os agricultores desvalidos, o movimento em si e o PT, que, hoje de forma visível nas palavras de Lula, tenta acusar o MST de toda a culpa, mas que antes, quando Dilma era só ministra, deixava-o à vontade para invadir e depredar fazendas e propriedades Brasil afora. Afinal, seus militantes sentindo a cumplicidade do governo, nas eleições estaduais e municipais iriam votar em quem? Fariam campanha e apoiariam a quem?

Só agora, com o tempo passado e com a candidatura da ministra Dilma Roussef já praticamente sacramentada pelos cardeais do PT, mas que sofrerá e muito com esses crimes dos militantes, será formidável arma para a oposição relembrar o passado de guerrilheira Vanda vivido pela ministra na época do regime militar e que pode ser facilmente colado aos desmandos do MST. Tudo o que Lula quer hoje é se descolar do agora incômodo amigo de tantos anos. Seria mesmo cômico se fosse só a caricatura do velho e bom amigo da onça, mas não é.

Mas, da forma que as coisas vão, podem ter certeza de que vai sobrar onça para todo mundo.

 

Vellker é o colaborador que trata sobre política no Administrando.
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