ACIDENTES DE PERCURSO
Por Enrico Cardoso
Hoje eu estava me lembrando dos tempos de criança, fazendo uma reflexão da época de quando minha maior preocupação era se eu iria conseguir recuperar a minha nota 2,5 em Física. Uma matéria que nunca foi com a minha cara. Eu deveria ter uns quinze anos, meus medos e frustrações eram outros e eu tinha outras perspectivas de futuro. Naquela época, meu desejo era poder tirar a carteira de motorista para poder dirigir. Detalhe: nem carro eu tinha. Mas queria a maldita a carteira aos dezoito anos. Aos quinze anos eu pensava em ter dezoito. Hoje, quase dez anos depois, minha vontade é estar de volta àquela época. Não porque as responsabilidades eram menores. Até porque, desde que minha mãe se separou do meu pai, eu tenho tentado ser o homem da casa (até desistir de vez e vir pra São Paulo, ano passado) desde então. Eu queria bater um papo com esse moleque. Queria dizer pra ele que nada sairia como planejado: que a carta de motorista só viria aos quase dezenove anos, que o sonho de fazer uma faculdade fora não iria se realizar e que, tão cedo, ele não teria um carro seu para dirigir. Mas, será que ele me ouviria? Afinal, a vida ainda era dele e ele poderia construir o seu futuro.
Eu tenho um amigo que dizia que queria ter o conhecimento de hoje, há trinta anos atrás. Essa frase serve para demonstrar o como ainda somos sonhadores em relação ao dia de amanhã, ao desconhecido. Serve também para demonstrar que tudo é muito mais fácil quando imaginamos. Eu aprendi a ser o mais otimista possível, dentro de um cenário realista-pessimista. O que isso quer dizer? Quer dizer que o cenário, as pessoas e a inércia jogam contra você. Você tem apenas um cérebro e o seu corpo. Como ser otimista quando a realidade está lhe impedindo? Isso quer dizer que precisamos ser otimistas em atitudes e pensamentos, mas sabermos que o pior já está nos esperando, caso não façamos algo.
Aonde eu quero chegar com isso tudo? A lugar nenhum. Como todas as reflexões essa também não vai chegar a lugar algum. Mas é ela que determina o aprendizado com a rotina. Eu ouvi uma frase um dia que marcou para sempre a minha vida:
“O que determina um profissional de sucesso não é apenas trabalho duro. São fases de trabalho duro, somadas à auto-disciplina, intercaladas com reflexões sinceras aliadas ao trabalho duro que diferenciam um profissional de sucesso de um profissional mediano”.
Nas empresas não é diferente. O fator resultado é composto pela dedicação, aliada a auto-disciplina e auto-crítica, somadas com humildade. Os maiores líderes do mundo já fracassaram um dia. O que diferenciam Steve Jobs e Bill Gates de empresas que morrem nos primeiros seis meses é a forma com que é feita a reflexão e a aceitação de seus fracassos.
A vida é uma eterna estrada… uma rodovia. É para frente que se anda, mas, muitas vezes, para andar para frente é preciso dar dois passos para trás. É o que chamamos de armar a guarda. Voltar atrás é realizar o sonho do meu amigo: aliar a sabedoria à juventude. Afinal, jovem é aquele que tem energia suficiente para dar errado quantas vezes for preciso (não no mesmo erro, é claro), aprender com o erro, não repeti-lo e seguir em frente, mesmo que isso signifique começar do zero.
A vida é uma infinita highway, como diz uma música e, muitas vezes, para continuarmos seguindo é preciso fazer algumas paradas para re-abastecer, recarregar as energias e rever o trajeto. Se erramos, se nos confundimos, se nos equivocamos, é hora de aprender com o erro, voltar – se preciso for – e seguir em frente, sempre. Empresas quebram, profissionais erram e podemos não conseguir recuperar o 2,5 em Física. Mas, se formos alunos disciplinados, saberemos aprender com os próprios erros, não repeti-los, e se fizermos as paradas necessárias, conseguimos recuperar o atraso. Como em Física, naquele ano, eu tenho sempre conseguido me recuperar. Mesmo que eu perca o verão, que as empresas acabem e que os objetivos se misturem, eu sempre lembro de que devemos reunir experiência, conhecimento e juventude para recomeçar de cabeça erguida. Quanto aos dois passos para trás – a defesa armada – eles servem para impulsionar-nos vários passos a frente, afinal, a melhor defesa é o ataque. Ainda mais se for o contra-ataque.
Acorda! Tá na hora de mudar o mundo…




